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Sistemas de Integração Lavoura Pecuária Floresta: Caminho Para Uma Pecuária Mais Sustentável

Rolando Pasquini Neto¹*,

José Ricardo Macedo Pezzopane²,

Rafael Araújo Nacimento³,

Augusto Hauber Gameiro¹


¹ Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnica, USP, Pirassununga, SP;

² Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Embrapa/ CPPSE, São Carlos, SP;

³ Programa Eixos Temáticos da IEA/ USP, São Paulo, SP;


Diante do futuro da pecuária de corte no Brasil, buscar por estratégias de produtividade que impactarão a cadeia e selecionarão os pecuaristas engajados em promover o uso sustentável da terra requer, fundamentalmente, fomentar sistemas de produção harmônicos que utilizem e preservem os recursos naturais do meio ambiente. Tal estratégia deve objetivar a garantia de benefícios sociais e econômicos para o suprimento das necessidades da atual geração sem comprometer a capacidade produtiva do planeta ao longo do tempo, além de garantir o bem-estar animal bem como das futuras gerações. Nesse aspecto, sistemas integrados de produção, caracterizados pelos componentes agrícola, pecuário e florestal em rotação, sucessão ou consórcio surgem como uma alternativa próspera ao considerar os seus múltiplos benefícios em uma mesma área.

Além disso, considerando a história e os avanços da pecuária de corte em busca de caminhos que permeiam e objetivam maior sustentabilidade, os sistemas integrados de produção surgiram como ferramenta para auxiliar na recuperação do solo e de pastagens degradadas bem como para a condução estratégica das lavouras e para a mitigação das emissões antrópicas de gases de efeito estufa (GEE). Tais sistemas priorizam minimizar os impactos ambientais por meio da diversificação de produtividade entre culturas e da circularidade, maximizando a utilização dos ciclos biológicos dos seus componentes e aumentando a eficiência de produtividade com a conservação dos recursos naturais de forma sinérgica durante o processo de produção. Consequentemente, esta prática agropecuária propõe estabilidade financeira e dignidade de vida no meio rural quando há racionalidade técnica durante os meios de produção.

Segundo o artigo publicado no periódico “Agronomy for Sustainable Development” e intitulado “Fuzzy Logic Indicators for the Assessment of Farming Sustainability Strategies in a Tropical Agricultural Frontier” (Tradução livre: “Indicadores de lógica difusa para avaliação de estratégias de sustentabilidade agrícola em uma fronteira agrícola tropical”), as propriedades rurais que apresentam os maiores índices de sustentabilidade (IS) e retornos econômicos ao mesmo tempo foram aquelas constituídas por sistemas de integração pecuária-floresta (silvipastoris) e lavoura-pecuária (ILP) (com IS de 91,9 e 91,8%, respectivamente), demonstrando um elevado desempenho e uma harmonia contínua em suas três dimensões (econômica, social e ambiental), quando comparadas com propriedades que apresentam apenas sistemas de pecuária em monocultivo (com IS de 21,7% para a propriedade melhor ranqueada). Ainda, segundo os autores, isto se deve a combinação da atividade agropecuária com a alta tecnologia, ou seja, a eficiência no uso de insumos associada ao ajuste do serviço ecossistêmico florestal e às práticas de gestão e de uso de tecnologias cada vez mais avançadas, que visam melhorar os resultados financeiros e operacionais em cada escala de determinado tipo de sistema de integração.

Por outro lado, considerando as propriedades rurais com sistemas de pecuária em monocultivo, o estudo aponta que, os indicadores econômicos, sociais e ambientais (com 17,4, 39,7 e 17,8% para a mais bem ranqueada, respectivamente) quando associados, influenciaram negativamente suas métricas, proporcionando baixos IS, principalmente, por apresentarem desempenhos ambientais insustentáveis. Neste aspecto, fatores ligados ao uso intensivo de insumos externos para manter os elevados níveis de produção em áreas em expansão e a falta de controle estratégico dos manejos práticos que envolvem seus componentes estiveram diretamente relacionados com a manutenção da fertilidade natural do solo e das pastagens, consequentemente, com a degradação a longo prazo e no aumento dos fluxos antrópicos de GEE.

No entanto, apesar do avanço no desenvolvimento dos sistemas que usam integração no âmbito nacional desde o início do século XXI (passando de 2,5 milhões de hectares em 2005 para cerca de 17,4 milhões de hectares em 2020) e das inúmeras vantagens que a prática proporciona na pecuária, frutos dos esforços dos planos de ações políticos e das práticas sustentáveis, muitos pecuaristas demonstram um perfil altamente conservador à incorporação da tecnologia, principalmente, quando é considerado o risco inerente a atividade comparada a atividade em monocultura. Ou seja, questões socioeconômicas e regionais determinam a lenta adoção dos sistemas de integração na pecuária do país, e fatores relacionados com a complexidade da tecnologia frente ao nível educacional dos pecuaristas associados com a dificuldade de acesso à informação confiável bem como a assistência técnica, além das restrições financeiras para o alto investimento inicial e a previsão da reversão dos benefícios financeiros direcionada apenas no longo prazo (entre 6 e 10 anos, de acordo com a espécie arbórea) influenciam a capacidade de adesão à inovação.

Além disso, estes fatores socioeconômicos têm relação direta com a presença, interação e cooperação de instituições (cooperativas agropecuárias e associações de produtores rurais) e organizações públicas e privadas no entorno das propriedades rurais. Pois, quando associadas à liderança de pecuaristas pioneiros na adoção dos sistemas integrados, caracterizados pela “curiosidade, capacidade de inovação, reconhecimento e confiabilidade”, desempenham e influenciam fortemente a tomada de decisão de outros pecuaristas para a adoção da tecnologia, adaptação e difusão em suas regiões, assim como para se tornarem bem-sucedidos. Neste aspecto, uma vez que as projeções dos avanços da agropecuária brasileira demandarão um cenário de inovação que objetive cada vez mais a sustentabilidade, espera-se que o processo de disseminação de informação a respeito dos benefícios dos sistemas integrados em comparação ao sistema convencional se intensifique, em razão de existir diversos padrões socioambientais certificados e instaurados pela indústria no mercado atualmente.

De uma forma geral, vale a pena destacar que, os sistemas integrados nas suas diversas modalidades podem ser implantados em diferentes propriedades rurais e adaptados independentemente de cada região, condição e tamanho físico. E dada a importância da busca por uma pecuária de corte cada vez mais sustentável, formular e adequar políticas públicas integradas a ações da iniciativa privada bem como as estratégias das instituições e organizações, se torna uma necessidade iminente na atividade. Pois, como observado no estudo supracitado, do ponto de vista produtivo e econômico, as propriedades que adotarem tais tecnologia poderão apresentar muitas vantagens sobre as exigências do mercado consumidor, visto que a sociedade está se tornando cada vez mais consciente para com as preocupações ambientais.

Por fim, sugere-se o apoio e o fomento por parte da iniciativa público-privada por meio da transmissão de informações técnicas e econômicas de qualidade, em tempo real, para uma rede de relacionamentos estruturada, principalmente, de forma continuada e a baixo custo, em que a participação dos pecuaristas pioneiros na adoção dos sistemas integrados da região seja priorizada para fornecer orientações sobre:

  • A transferência e a adaptação da tecnologia;

  • A elaboração de projetos e os financiamentos utilizados;

  • A comercialização e o uso de mecanismos de gestão de risco.



Referências


BUNGENSTAB, D. J. et al. ILPF: Inovação com Integração de Lavoura, Pecuária e Floresta. Brasília, DF: Embrapa, 835 p., 2019.


Dos REIS, J. C. et al. Fuzzy Logic Indicators for the Assessment of Farming Sustainability Strategies in a Tropical Agricultural Frontier. Agronomy for Sustainable Development, p. 18, 2023. https://doi.org/10.1007/s13593-022-00858-5


POLIDORO, J. C. et al. The impact of plans, policies, practices and technologies based on the principles of conservation agriculture in the control of soil erosion in Brazil. Authorea, p. 16, 2020. https://doi.org/10.22541/au.158750264.42640167


SOUSA FILHO, H. M. et al. Determinants of adoption of integrated systems by the cattle farmers in the State of São Paulo, Brazil. Agroforestry Systems, p. 15, 2020. https://doi.org/10.1007/s10457-020-00565-8











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