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Por que “custo” é tão importante e, ao mesmo tempo, pouco conhecido?

Augusto Hauber Gameiro

Ricardo Barboza Alves

Carmo Gabriel da Silva Filho


Não há atividade econômica que não se preocupe com o seu custo de produção. Se o custo for superior ao preço do produto ou serviço gerado, no longo prazo a atividade é inviável. Talvez devido a essa importância central para a economia capitalista moderna, praticamente todos os agentes econômicos, sejam eles produtores ou consumidores, têm uma noção sobre o que é custo. Mas será que os agentes econômicos realmente sabem o que é custo? Ou melhor, sabem o que é custo exatamente?

Dedicamos grande parte de nossas carreiras ao estudo dos custos de produção, com mais ênfase aos custos da produção agropecuária e agroindustrial. Podemos constatar que, muito embora quase todo mundo tenha uma ideia do que é custo, pouquíssimos sabem o que é exatamente. Também aprendemos que esse desconhecimento generalizado não é de graça, ou seja, ele tem uma razão muito forte de ser. A razão é que a real concepção de custo não é trivial e, mais ainda, ela guarda significativos aspectos de subjetividade, ou seja, é o famoso “depende”.

Desde a Grécia antiga, pensadores já se preocupavam com a questão. Aristóteles teria sido um dos primeiros a destacar a importância da reflexão econômica, tendo sido, provavelmente, aquele que cunhou o termo “Economia”, ao associá-lo com o desafio de suprir o lar (oikos = casa). Desde então, a preocupação econômica nunca mais nos deu trégua. Suprir seu próprio lar é o primeiro desafio da maioria dos seres humanos desde o surgimento da espécie enquanto tal.

Já quase na Idade Contemporânea, Adam Smith, ao qual muitos associam o título de “Pai da Economia” (enquanto ciência) também teorizou sobre o custo. No seu exemplo clássico do esforço de se caçar cervos em relação ao esforço de se caçar castores, ele apresentou uma das primeiras teorizações sobre custo, ou, mais genericamente, sobre valor. Para ele, o custo era dado pelo esforço de realização do trabalho. Surge a escola “Clássica” da Economia.

Na sequência, os chamados “Neoclássicos” procuraram aperfeiçoar a concepção clássica de custo e valor, associando os efeitos marginais, que até hoje são reconhecidamente fundamentais para a compreensão de uma economia de mercado. Assim, caçar o primeiro castor certamente é bem mais fácil (menos custoso, portanto, com menos valor) do que caçar o milésimo castor, seja pelo efeito da disponibilidade desses animais, seja pelo cansaço do caçador. Logo, o custo de um castor não é absoluto, mas depende de que castor estamos falando, de qual a sua “ordem” no processo de caça, e de quem o caça.

Com isso, os neoclássicos acrescentam poder de explicação, mas caíram na subjetividade do “depende”: depende de qual castor, depende da hora da caça, depende do caçador, depende da “fome” das pessoas por carne de castor, depende, depende, depende…

Apenas um pouco mais para frente, com o fortalecimento da chamada Escola de Viena (ou Escola Austríaca), que economistas, como Menger resolveram a questão associando o custo (ou o valor) do castor (e do cervo), à sua disponibilidade e valoração pelo mercado. Ou seja, o próprio mercado seria o mecanismo de valoração de todos os bens e serviços disponíveis em uma sociedade. Basta descobrir o valor de mercado e pronto: temos o valor, ou o custo do bem ou serviço a que se está interessado.

A contribuição dos austríacos foi fundamental para que surgisse então o conceito de “custo de oportunidade”, dominante até hoje em todo o pensamento econômico. O valor (ou custo) de qualquer coisa seria dado pelo valor alternativo dessa coisa, ou seja, seu valor para uma outra aplicação que não a considerada. Trazendo para um exemplo bem prático (e pessoal), qual o custo da minha mão de obra? Seria o quanto eu conseguiria receber por ela no melhor emprego que eu pudesse obter para ela.

Note-se, portanto, uma aproximação bastante próxima entre “custo” e “valor”, e até mesmo, com “preço”. Muitos acham que é tudo a mesma coisa, o que não é verdade. Precisaríamos de muitas páginas para diferenciá-los adequadamente com o rigorismo que a ciência nos exige. Mas não é nosso objetivo aqui. Continuemos focados no custo.

A concepção de “custo de oportunidade” é, sem dúvida, a dominante e, até que se prove o contrário, funciona relativamente bem para produtos e serviços, desde que existam seus respectivos mercados. Bens não negociados em mercados, como o oxigênio que respiramos, a água da chuva, a beleza de uma paisagem e uma espécie que corre risco de extinção, não têm mercado, de modo que nossa concepção de “custo de oportunidade” também não irá nos ajudar. Mas deixemos também esses bens peculiares para uma outra conversa.

Continuemos nos bens e serviços que têm mercado, como é o caso que encontramos nos sistemas agropecuários. A maior parte dos nossos insumos são negociados em mercados, assim como muitos serviços, sejam eles especializados ou não. A aplicação da concepção de “custo de oportunidade”, portanto, é possível, mas não é trivial e sempre será repleta de subjetividade, porque sempre dependerá da avaliação contingente do tomador de decisão.

Qual o custo de oportunidade de 1 real? Depende de quem estiver com ele na mão. Para um investidor avesso ao risco, pode ser o juro de uma poupança, para um investidor acostumado a operar no mercado financeiro será algo bem mais alto que isso.

Qual o custo de oportunidade de um determinado trabalhador? Depende das suas qualificações, depende de quanto ele quer se sujeitar às diferentes condições. Enfim, o “depende” sempre fará parte da vida daqueles que querem gerenciar custo de produção.

Porém, apesar desse desafio e, portanto, apesar de que talvez nunca tenhamos um custo de produção preciso, exato, não podemos abrir mão de gerenciá-lo. Não gerenciar custo de produção é um dos principais fatores de insucesso de qualquer empreendimento. Há muitas técnicas, muitos modelos, fórmulas, dicas etc. para se fazer isso.

Na agropecuária é ainda particularmente tudo mais complexo e difícil, pela natureza biológica, climatológica, geológica etc. dos seus componentes. Mas não se pode deixar de lado o esforço de se chegar ao custo de produção mais fiel o possível.

Em nosso Laboratório temos nos dedicado a isso há vários anos, seja em esforços de pesquisa, de ensino e de extensão. Já desenvolvemos modelos de cálculo de custo de produção de ovinos, bovinos, suínos, aves etc. Procuramos aplicar a teoria econômica na máxima “pureza” que conseguimos. Procuramos gerenciar a subjetividade inerente ao explicitar todos os parâmetros e premissas que utilizamos nos cálculos. Temos um grupo de estudo dedicado exclusivamente ao tema: o Grupo de Estudo de Custos (Con$tare). Muito já foi feito, não apenas em nosso Laboratório, mas por diversos outros profissionais.

Mas ainda há muito chão pela frente. Quando rodamos este país imenso, percebemos que ainda são relativamente poucos os produtores que elaboram seus cálculos com os preceitos recomendados pela ciência da Economia. Fazendas que atuam com alta tecnologia já têm seus sistemas financeiros mais elaborados e funcionando bem, especialmente as grandes empresas que trabalham com lavouras, como soja, milho, algodão, café. Mas na pecuária e na produção animal de uma forma geral, nós estamos bem mais atrasados enquanto país.

É preciso esforço conjunto de técnicos, produtores, consultores, educadores para que possamos elevar o nível de gestão das nossas produções. Tais esforços certamente ajudarão esses empreendimentos a tomarem suas decisões com maior probabilidade de acerto; ajudarão na escolha da melhor tecnologia (que raramente é a mais avançada); ajudarão na gestão dos seus recursos físicos e financeiros; ajudarão no seu sucesso tão buscado por todos nós.


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