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O que os elefantes podem nos ensinar sobre vínculos? Uma reflexão sobre cuidado, desenvolvimento e a importância das relações

  • GAAE
  • há 16 horas
  • 7 min de leitura
Elefantes na lama, incluindo um filhote, com logotipos GAAE e LAE

Ana Clara Mendes Pimenta de Oliveira

Augusto Hauber Gameiro

Grupo de Acolhimento e Apoio Educacional (GAAE/LAE/FMVZ/USP)


Os elefantes estão entre os animais mais sociais do planeta. Vivem em grupos familiares marcados por cooperação, memória, cuidado compartilhado e aprendizagem coletiva. A partir da Etologia, da Psicologia e da Medicina Veterinária, este artigo propõe uma reflexão sobre como os vínculos influenciam o desenvolvimento, a saúde e a capacidade de adaptação de diferentes espécies, mostrando que, embora humanos e elefantes sejam muito distintos, ambos compartilham uma necessidade fundamental: viver em relação com o outro.


Introdução

Imagine um filhote fêmea de elefante dando seus primeiros passos na savana. Apesar do tamanho ao nascer, ela depende completamente do grupo para sobreviver. Além da mãe, tias, avós e outras fêmeas protegem, orientam e participam de seu aprendizado, enquanto a matriarca utiliza sua experiência para conduzir a família diante de desafios, como secas e predadores.

Essa organização revela que a sobrevivência dos elefantes depende não apenas da força física, mas também da cooperação, da aprendizagem e dos vínculos sociais. Ao contrário da ideia de que a evolução é guiada apenas pela competição, diversas espécies prosperam graças ao cuidado coletivo e à confiança entre seus membros. Estudos mostram que as sociedades de elefantes são estruturadas pela transmissão de conhecimento entre gerações e pela proteção dos indivíduos mais vulneráveis (Moss, 1988; Moss, Croze & Lee, 2011).

Sob a perspectiva da Psicologia e da Medicina Veterinária, esses comportamentos também ajudam a compreender o desenvolvimento humano, evidenciando que aprendizagem, identidade e saúde emocional são profundamente influenciadas pela qualidade das relações que estabelecemos. Assim, estudar os elefantes é também uma forma de compreender melhor a nós mesmos.


Muito além da memória: sociedades construídas sobre relações

Os elefantes são conhecidos por sua memória, mas seu maior diferencial está na capacidade de transformar experiências individuais em conhecimento coletivo. As famílias são lideradas por matriarcas, cuja experiência orienta decisões fundamentais, como localizar fontes de água, identificar riscos e conduzir o grupo em períodos de escassez. Estudos de Cynthia Moss demonstram que grupos liderados por matriarcas experientes apresentam maiores taxas de sobrevivência (Moss, 1988; Moss, Croze & Lee, 2011).

Esse conhecimento é transmitido entre gerações, caracterizando uma forma de cultura animal. Rotas migratórias, estratégias de alimentação, formas de comunicação e respostas a ameaças são aprendidas pela convivência com indivíduos mais experientes. Assim, um filhote aprende a viver sendo um elefante por meio das relações estabelecidas com seu grupo.

Nesse sentido, a infância prolongada dos elefantes favorece o desenvolvimento de habilidades sociais essenciais. Durante esse período, os filhotes são protegidos não apenas pelas mães, mas também por tias, irmãs e outras fêmeas, em um comportamento conhecido como alomaternagem. Esse cuidado compartilhado fortalece a sobrevivência dos filhotes e prepara as fêmeas mais jovens para futuros cuidados parentais.

Essa dinâmica encontra paralelos na Psicologia do Desenvolvimento. Segundo Lev Vygotsky (2007), as funções psicológicas superiores surgem primeiro nas interações sociais para, depois, serem internalizadas. Da mesma forma que crianças aprendem com familiares e professores, filhotes de elefante aprendem observando o comportamento do grupo. O desenvolvimento, portanto, não ocorre de forma isolada, mas é construído nas relações, evidenciando que aprender é, antes de tudo, viver com os outros.


O cuidado favorece o desenvolvimento

Outro aspecto marcante das sociedades de elefantes é a forma como o cuidado não representa fragilidade, mas adaptação. Em muitos contextos culturais, autonomia costuma ser confundida com independência absoluta, como se precisar do outro fosse um sinal de fraqueza. Entretanto, a biologia conta uma história diferente.

Ao observar um grupo de elefantes, torna-se evidente que justamente os indivíduos mais protegidos durante a infância desenvolvem posteriormente maior capacidade para explorar o ambiente, integrar-se ao grupo e responder aos desafios ecológicos. O cuidado recebido nos primeiros anos não impede o desenvolvimento da autonomia; ele cria as condições necessárias para que ela aconteça.

Essa compreensão dialoga diretamente com a Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby (1988). Para o autor, vínculos seguros funcionam como uma "base segura" a partir da qual crianças conseguem explorar o mundo, enfrentar situações novas e desenvolver independência emocional. A presença de uma figura confiável reduz a percepção de ameaça e favorece comportamentos exploratórios.

Entre os elefantes observa-se dinâmica semelhante. Quando assustados, os filhotes aproximam-se rapidamente da mãe ou de outras fêmeas do grupo. Depois que a situação se estabiliza, retomam gradualmente a exploração do ambiente. O vínculo não limita sua liberdade; oferece a segurança necessária para que ela exista.

Essa ideia rompe com uma visão bastante difundida de que autonomia significa não precisar de ninguém. Tanto a Psicologia quanto a Etologia sugerem justamente o contrário: relações consistentes favorecem indivíduos mais confiantes, resilientes e capazes de lidar com mudanças.


Ambientes que favorecem o crescimento: a contribuição de Carl Rogers e Enrique Pichon-Rivière

Se os elefantes mostram que o cuidado compartilhado favorece o desenvolvimento, a Psicologia Humanista ajuda a compreender por quê. Carl Rogers (1961) defendia que todo ser humano possui uma tendência natural ao crescimento, à aprendizagem e à realização de suas potencialidades, denominada tendência atualizante. No entanto, essa capacidade depende das condições oferecidas pelo ambiente. Contextos marcados por empatia, autenticidade e aceitação favorecem o desenvolvimento, enquanto ambientes inseguros ou excessivamente julgadores podem limitá-lo.

Embora Rogers se referisse ao desenvolvimento humano, sua teoria dialoga com a organização social dos elefantes. O cuidado compartilhado, a proteção dos indivíduos mais experientes e a estabilidade das relações criam um ambiente que favorece a aprendizagem, a exploração e o desenvolvimento das habilidades necessárias para a vida adulta. Assim, tanto humanos quanto elefantes desenvolvem melhor suas capacidades quando vivem em ambientes de segurança, cooperação e apoio.

A importância das relações também foi discutida por Enrique Pichon-Rivière (2005), para quem o ser humano é essencialmente um ser de vínculos. Nossa identidade é construída nas relações estabelecidas com a família, amigos, grupos sociais e cultura. Segundo o autor, os grupos são espaços de aprendizagem, transformação e construção coletiva do conhecimento.

Essa perspectiva aproxima-se da organização social dos elefantes. Em seus grupos familiares, os conhecimentos necessários para sobreviver, comunicar-se e cuidar dos mais jovens são transmitidos coletivamente. Assim, os vínculos não representam apenas apoio emocional, mas estruturas fundamentais para a aprendizagem, a adaptação e o desenvolvimento.


Pertencer é uma necessidade biológica

Durante muito tempo, acreditou-se que a necessidade de pertencimento fosse apenas um aspecto emocional. Entretanto, Baumeister e Leary (1995) demonstraram que formar e manter relações interpessoais estáveis é uma necessidade humana fundamental. A ausência de vínculos consistentes está associada ao aumento do sofrimento psicológico, do estresse e a prejuízos para a saúde física e mental.

Embora esse conceito tenha sido desenvolvido para os seres humanos, ele encontra paralelos na Etologia. Em espécies altamente sociais, como os elefantes, o isolamento ou a perda de indivíduos experientes pode comprometer a organização do grupo e sua capacidade de adaptação. Dessa forma, tanto em humanos quanto em elefantes, os vínculos constituem um elemento essencial para o desenvolvimento e a sobrevivência.


Os vínculos atravessam espécies

Nas últimas décadas, a Medicina Veterinária ampliou o estudo dos vínculos entre humanos e animais. Aaron Katcher e Alan Beck (1996) demonstraram que a convivência com animais promove benefícios fisiológicos, psicológicos e sociais, enquanto James Serpell (1996) consolidou o conceito de Human-Animal Bond, definindo essa relação como dinâmica e mutuamente benéfica.

Estudos posteriores mostraram que interações positivas com animais estimulam a liberação de ocitocina e reduzem os níveis de cortisol, favorecendo a formação de vínculos e a diminuição do estresse (Beetz et al., 2012). Essas evidências fortaleceram as Intervenções Assistidas por Animais, atualmente utilizadas na reabilitação física, no apoio psicológico e no cuidado de diferentes públicos, sempre considerando o bem-estar de humanos e animais (Fine, 2019).

Essa perspectiva também dialoga com o conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Assim, compreender os vínculos entre espécies representa não apenas um tema científico, mas uma estratégia para promover saúde e bem-estar coletivo.


O que os elefantes ainda podem nos ensinar

Os elefantes não desenvolveram sociedades complexas por acaso. Ao longo de milhões de anos de evolução, a cooperação, o cuidado compartilhado, a aprendizagem social e a transmissão de conhecimento tornaram-se estratégias fundamentais para enfrentar ambientes imprevisíveis e garantir a sobrevivência do grupo.

A Etologia, a Psicologia e a Medicina Veterinária mostram que força não significa independência absoluta, mas a capacidade de aprender, adaptar-se e superar desafios por meio de relações significativas. Nos elefantes, a memória e o conhecimento são compartilhados entre gerações, o cuidado fortalece o grupo e a autonomia surge da segurança proporcionada pelos vínculos.

Da mesma forma, a ciência demonstra que os seres humanos desenvolvem suas capacidades cognitivas, emocionais e sociais em ambientes marcados pelo pertencimento, pela cooperação e pelo apoio. Assim, embora humanos e elefantes tenham trajetórias evolutivas distintas, ambos evidenciam que viver em sociedade é construir relações que sustentam a aprendizagem, a saúde e o desenvolvimento. Ao observar um grupo de elefantes caminhando pela savana, percebemos um princípio fundamental da vida: ninguém floresce completamente sozinho.


Sobre o GAAE

O Grupo de Acolhimento e Apoio Educacional (GAAE/LAE/FMVZ/USP) é uma iniciativa voltada à comunidade acadêmica do Campus Fernando Costa da Universidade de São Paulo, em Pirassununga. O grupo surgiu como um projeto de apoio educacional ligado ao Laboratório de Análises Socioeconômicas e Ciência Animal (LAE), inicialmente com foco no aconselhamento pedagógico de estudantes de graduação e pós-graduação. A partir da experiência desenvolvida no Campus e da identificação de demandas relacionadas à inclusão, ao acolhimento e ao sentimento de pertencimento, o grupo ampliou sua proposta para também oferecer um espaço de escuta, acolhimento e orientação aos estudantes. As atividades são abertas a estudantes de graduação e pós-graduação e incluem reuniões em grupo, que podem ocorrer semanalmente, além da possibilidade de formação de subgrupos e de atendimentos individualizados em situações que demandem sigilo. Dessa forma, o GAAE busca contribuir para uma Universidade mais acolhedora e inclusiva, fortalecendo vínculos, facilitando a integração dos estudantes e colaborando para a construção de uma cultura de pertencimento no Campus.


Referências

BAUMEISTER, R. F.; LEARY, M. R. The Need to Belong: Desire for Interpersonal Attachments as a Fundamental Human Motivation. Psychological Bulletin, v. 117, n. 3, p. 497–529, 1995.

BECK, A. M.; KATCHER, A. H. Between Pets and People: The Importance of Animal Companionship. West Lafayette: Purdue University Press, 1996.

BEETZ, A. et al. Psychosocial and Psychophysiological Effects of Human-Animal Interactions: The Possible Role of Oxytocin. Frontiers in Psychology, v. 3, 2012.

BOWLBY, J. A Secure Base: Parent-Child Attachment and Healthy Human Development. New York: Basic Books, 1988.

FINE, A. H. (Ed.). Handbook on Animal-Assisted Therapy. 5. ed. London: Academic Press, 2019.

MOSS, C. J. Elephant Memories: Thirteen Years in the Life of an Elephant Family. Chicago: University of Chicago Press, 1988.

MOSS, C. J.; CROZE, H.; LEE, P. C. (Eds.). The Amboseli Elephants: A Long-Term Perspective on a Long-Lived Mammal. Chicago: University of Chicago Press, 2011.

PICHON-RIVIÈRE, E. O Processo Grupal. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

ROGERS, C. R. On Becoming a Person. Boston: Houghton Mifflin, 1961.

SERPELL, J. In the Company of Animals. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.

VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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